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A TERRA COMO LIMITE...

UM ESPAÇO ONDE ESCREVEREI SOBRE TUDO, SOBRETUDO, SOBRE TUDO QUE SEJA CAPAZ DE CAPTAR A MINHA ATENÇÃO. UM ESPAÇO ONDE O LIMITE NÃO LIMITA - APENAS DELIMITA.

A TERRA COMO LIMITE...

UM ESPAÇO ONDE ESCREVEREI SOBRE TUDO, SOBRETUDO, SOBRE TUDO QUE SEJA CAPAZ DE CAPTAR A MINHA ATENÇÃO. UM ESPAÇO ONDE O LIMITE NÃO LIMITA - APENAS DELIMITA.

"ALFENA JÁ RESPIRA SAÚDE" E... LIXO!

Quem se der ao trabalho de perder algum tempo - e aqui, "perder" deve ser entendido no sentido literal - a navegar pelo site da Junta de Freguesia, para além de alguma "informação" desactualizada encontará também algumas "promoções" não devidamente assinaladas com uma indispensável "declaração de interesses" dos nossos responsáveis autárquicos - do anterior e actual mandato.

A promiscuidade entre os interesses quase sempre conflituantes - o Público e o privado - ganha na nossa Terra uma dimensão inusitada quando assistimos à promoção - descarada diria eu - no site da Autarquia, do projecto privado Hospital da Trofa. Desde logo, pela polémica em que desde o início o mesmo andou envolvido - violação das regras do PDM, especulação imobiliária, tráfico de influências - mas sobretudo, porque sendo algumas figuras gradas do grupo dos Unidos por Alfena também accionistas do Grupo Trofa Saúde, não fica bem esta promiscuidade.

"Alfena já respira saúde"...


Mas onde eu queria verdadeiramente chegar, era ao "slogan" que aparece várias vezes repetido nas notícias da Junta "Alfena já respira Saúde" e que importa aqui reduzir à sua verdadeira e deprimente dimensão, através do texto e fotografias que um amigo atento me fez chegar.

E garanto que é apenas uma pequena amostra do muito que pode ser encontrado por aí na nossa Alfena - a tal que "já respira Saude"...


ALFENA – “A capital do lixo”

A exposição que abaixo se segue, poderia levar o leitor mais desatento a pensar que estaria a contemplar imagens de uma lixeira algures em Luanda, ou de um outro qualquer lugar de uma outra qualquer cidade de um qualquer País subdesenvolvido, igualmente transformada em lixeira a céu aberto.
Mas não! A verdade é que se trata de um exemplo existente numa freguesia que dista poucos quilómetros da “capital do móvel”, e que ameaça adquirir o estatuto de “capital do lixo”. Trata-se da vila de Alfena... nos nossos dias!
Não obstante a LIPOR ter sido erradicada do concelho de Valongo há alguns anos atrás, a actual Junta de Freguesia de Alfena
parece muito empenhada em transformar as ruas desta simpática vila, em aterros, pouco sanitários, diga-se. A juntar a outros casos idênticos que começam a proliferar, as lixeiras a céu aberto já são a companhia diária de muitos idosos e jovens desta freguesia. Fiéis e sempre presentes como se de um vulgar animal de estimação se tratassem, mas ao contrário destes, nem amigas nem dóceis, pois não conseguem oferecer mais do que maus cheiros, pestilências e doenças.
O problema das lixeiras em Alfena, ou da (in)salubridade das suas ruas e respectiva (falta de) limpeza não é um assunto muito simpático para uma determinada espécie de autarcas que se preocupam mais com o bem estar económico de alguns gabinetes de projectos. Também não é um assunto a ter em conta por autarcas ausentes da freguesia e presidentes em “part-time”, mais dedicados aos jogos de poder e influência política do que empenhados no bem-estar dos cidadãos.
Não é pois de estranhar que a Junta de Alfena, outrora muito vigorosa e extremamente zelosa na defesa dos seus fregueses, esteja agora, num estado de perfeita letargia, imóvel, despreocupada e desinteressada. Mas esta anemia já não é nova, arrasta-se há vários meses, desde o final do mandato passado e ameaça transformar-se numa autêntica anorexia.
Na actual Junta mudaram-se algumas pedras ornamentais de sítio, mas o estado de saúde da vila continua a degradar-se. É motivo para nos questionarmos: “será que existe algum sector de ambiente nesta Junta de Freguesia?”
Nas fotografias abaixo recolhidas, os leitores podem contemplar todo o tipo de lixo que costuma andar de braço dado com viroses, infecções e doenças.
Que melhor companhia para as crianças que brincam nos passeios, ou idosos que passeiam pelas ruas da vila em caminhadas que se pretendiam saudáveis?
Buracos gigantescos a céu aberto que potenciam acidentes, terrenos com mato gigantesco encostados a habitações, onde proliferam ratos, lixo espalhado por todo o lado...
Este é o cartão de visita da nossa Vila, outrora preocupação de muitos, hoje abandonada e esquecida…

publicado às 17:33

CGD - BANCO DO ESTADO OU DO... GOVERNO?

O texto que se segue, está publicado no blog Estado Sentido e vem mesmo a propósito do meu post anterior.

Eu até sou (ainda) cliente da Caixa Geral de Depósitos, mas começo a tropeçar em inúmeras situações em que este Banco Público aparenta mais ser uma "correia de transmissão" do governo e da sua política de favorecimentos financeiros preferenciais, do que um banco no sentido estrito do termo...

Porque os gestores dos Serviços centrais da CGD não lêem seguramente o meu blog, vou enviar-lhes um Link deste post na esperança de que um dia se sintam obrigados a explicar aos muitos clientes - e ao País em geral - os contornos do financiamento dos 160 MDólares à Dª. Isabel dos Santos para a compra dos 10% da ZON.

Já quanto a deportar para Angola os envolvidos no caso referido - aquele em que o paizinho da senhora se sente burlado por uma Instituição bancária portuguesa - para "acertarem" localmente as contas, não estou de acordo, porque isso representaria mais um encargo para o erário Público. Fica mais barato enfiá-los no último dos nossos submarinos ainda no activo, ligar o "piloto automático" e encaminhá-lo para o mar alto com combustível limitado à viagem de ida...


O que dizem as notícias é que o presidente de Angola foi lesado (?) em mais de 100 milhões de dólares num investimento que fez em Portugal numa instituição financeira.
Humilhado este exigiu até à pouco tempo a devolução do dinheiro perdido como condição de qualquer futuro aval a novos acordos comerciais entre os dois países. Agora súbitamente a Caixa Geral de Depósitos surgiu a dar o dinheiro que a filha do Sr. Eduardo dos Santos utilizou para adquirir parte da Zon . Coincidência? Espero que não seja outra situação em que os contribuintes portugueses pagam pela desonestidade de uns poucos empresários sem escrúpulos. Justo seria pegar nos indivíduos em questão e caso fossem realmente culpados, deportá-los (como antigamente) para Angola para resolverem o assunto directamente. À falta de melhor devíamos começar a exportar corruptos e gente desonesta, já cá os temos em demasia.

publicado às 13:11

"PETRO/DIAMOND-DÓLARES" E DINHEIRO SUJO - OS NOVOS COLONIZADORES...

 

Isabel dos Santos compra 10% da Zon por 160 milhões

A Zon vai passar a ter capital angolano, confirmaram já as partes, estando a entrada de Isabel dos Santos na Zon sujeita à aprovação pelos accionistas da operadora portuguesa. A finha do presidente de Angola paga 160 milhões por 10% do capital, o que representa um prémio de 26,4%.

Jornal de Negócios 20 Dezembro 2009

 

Curiosidades:

Durão Barroso é um amigo da família. Recentemente esteve no casamento da irmã mais nova de Isabel dos Santos...

O rol das empresas onde a senhora detém interesses relevantes, enche uma página de jornal.

O número e a dimensão das suas participações (e do papá também)  em empresas portuguesas, também já dá nas vistas.

(Há até quem veja nessas "infiltrações" a vingança dos antigos colonizados a quem o petróleo, os diamantes e a corrupção transformam agora em novos colonizadores...)


    Edição 1811 de 13. 07. 2007  (*)

                                                                                   

Luanda de luxo

Desponta em Luanda uma nova sociedade angolana que, entre festas e champanhe, vive do petróleo, dos diamantes e de negócios multimilionários

FESTA. Há quem viva entre recepções oficiais nos jardins da Cidade Alta e galas no palácio oficial do Presidente. 
Para trás ficam os que nada têm, num país em que a taxa de desemprego é de 80%.

Hoje há festa em Luanda. Hoje, um dia qualquer. Um bebé nasceu entre o lixo, próximo de um esgoto a céu aberto, alguém atirou uma lata de «gasosa» para um chão imundo, alguém lhe deu um pontapé, alguém a recolheu para vender no mercado da sobrevivência, alguém caiu de um prédio sem varanda, sem água, sem luz, cheio de nada, cheio de gente, construído em altura, como em extensão se construíram quilómetros de barracas instáveis e insalubres, chamados musseques. Todos no âmago desta Luanda, uma camisa-de-forças recheada de automóveis, quase tantos como os buracos das suas ruas. Esta Luanda encerra toda a Angola, encerrando-se da Angola que resta. A assimetria entre a capital e as províncias é enorme. E parece menor se comparada com as paralelas assimétricas que dividem os ricos inacreditavelmente ricos, os inacreditavelmente-novos-ricos e os pobres, ainda inacreditavelmente mais pobres, de Luanda. Hoje, alguém morreu de cólera, de paludismo, alguém arrasta feridas de guerra pela cidade, vende cigarros na rua, lava o corpo na lama, chora ausências de nutrição, procura comida na lixeira, foi assaltado por um miúdo, bebeu de mais, fumou de mais, abusou, foi abusado, encontrou mais uma jazida de diamantes, inaugurou mais uma torneira de petróleo. E alguém terá de abandonar o musseque com a família às costas, a fugir das águas da chuva, do polícia que lhe diz para parar, para pagar, «pentear», dar «gasosa», a correr de encontro à fome que já tinha, nos dias pesados do calor, sem mais nada que isso, só uma estranha alegria que faz o angolano sempre sorrir. «Estamos sempre a subir». Tão certo como o contrário.

Nessa noite, cansada de trabalhar, cansada porque não tem trabalho, sem coragem para levantar-se entre os despojos do seu caos, essa Luanda estava incapaz de comparecer ao evento. Fazia anos - não seria elegante dizer quantos - Isabel dos Santos, primogénita do Presidente José Eduardo dos Santos, que escolheu o Miami, um bar da moda na ilha de Luanda, do qual é sócia, para celebrar com coisa de setecentos amigos chegados. Todos os convidados, escrutinados por um pelotão de seguranças, deviam vestir de branco. Abaixo do bar, numa enorme tenda sobre a areia da praia, seria servido o jantar. Ao lado, separado por um passadiço, brilhava a jóia da coroa, o bolo de anos, num altar envolto em arranjos florais. Por trás, fogo de artifício para a primeira fatia do bolo. Um grupo de «capoeira» articulava-se onde podia. Seguranças ofereciam olhares atentos, absolutamente convencidos do seu estado incógnito. Os convidados sacudiam o protocolo. «Boa party», dizia o novo ao velho, olhos à deriva. «Estas damas não são do teu campeonato», advertiu o «cota».

Isabel chegou dentro de um vestido em fundo branco, com estampado exclusivo de flores magenta e rosa - evidente como uma piscina olímpica no deserto - com Sindika Dokolo, o marido, filho de um banqueiro congolês, herdeiro prematuro da condição de milionário. Em séquito, abriram alas vagarosamente, consentindo que os desfrutassem. Três amigas aproximavam-se a grande velocidade, instáveis em salto alto, voando para um abraço cúmplice. «Huammm!!!» Beijo na bochecha da filha do Presidente. «Parabéns, querida! O teu vestido é lindo. Estás boa?» Tudo indicava que sim. «Ainda bem que vieste», disse Isabel. «Ya. Como é que eu ia faltar?!», declarou a amiga. As outras duas, de sorriso aberto, espreitavam com os queixos em posição oftalmológica nos seus ombros. Que desculpassem, Isabel tinha afazeres protocolares.

Depois de um jantar bem regado, com interrupções fotográficas para a «Caras» angolana, decorria animadíssima a noite. Ocasião para iniciar a travessia para o bolo. Champanhe ao alto à saúde de Isabel, uma das empresárias mais poderosas de África, movendo-se em áreas multimilionárias como o petróleo ou os diamantes. Na última visita a Angola, o primeiro-ministro José Sócrates elogiou o seu empreendedorismo, endereçando-lhe convite para ministrar em Lisboa uma conferência sobre dinamismo empresarial. Talvez fosse aí o momento para explorar a contradição destes números: crescimento da economia angolana ao ano - 18 por cento; taxa de desemprego - 80 por cento. Ali, não era de certeza. Explodira alegria e fogo de artifício. O bolo de aniversário tinha agora um cenário de chuva brilhante, que iluminava o mar e os guardas que no pontão embalavam metralhadoras kalashnikovs.

Descera a madrugada em arromba. Os mais idosos começavam a desistir. Entravam outros, «party-people», «subjet-set» generalistas, a arejar as narinas com leques coloridos, envergando óculos panorâmicos, próprios para o amanhecer na pista. Excelente média de empresário por metro quadrado. O Mister África 2007, que agora chegava, cruzava-se com um deputado, de saída. A sociedade emergente desfilava, celebrando-se. O Miami era agora uma mini-Ibiza. O balcão do bar segurava um amontoado de gente, escorriam suores na pista, corpos apertavam-se, soltava-se África. Com a luz da manhã, os resistentes abandonaram.

À tarde, na esplanada de um restaurante chinês, na ilha de Luanda, hoje mais uma península, a cidade aparecia de novo deslumbrante, a coberto da distância, só interrompida por barcos de pesca rudimentares ou pelos iates que balouçavam ancorados. Câmara, luzes, acção: «Incrível! Como é que pode?», frase da Melhor Actriz angolana de telenovelas 2006, Tânia Bwity. Decorria a gravação da próxima telenovela da Televisão Pública de Angola, de título «Crime e Punição» - nada de Dostoievski -, sob direcção e argumento de Aloísio Filho, brasileiro, contente por ali estar, a bordo de um carro-digital com um estúdio móvel do mais moderno que é possível. «Incrível! Como é que pode?» Take 2. Os artistas, diz Tânia, são em muitos sentidos o espelho convexo da Angola que se mostra ao mundo, e ópio para os 12 milhões no anonimato, que usa quilómetros de puxadas de fios eléctricos só para os ver. «Incrível! Como é que pode?» Take 3. A avaliar pelo cenário, nada de errado.

A luz do dia começou a esconder-se. Do outro lado, Luanda adquiria brilho, camuflada sob as luzes de uma urbanidade que não tem. Esconde tantos segredos esta cidade, tantas singularidades, um fosso social que determina tudo ou nada, onde bolina uma classe média tímida, em boa parte expatriados ao serviço de multinacionais. Dizia alguém à Rádio Nacional sobre o problema dos buracos, que entopem o que está sobrelotado: «Como resolver o problema? Comprando um jipe.» Faz isto tanto sentido como a insegurança ser um excelente negócio para quem vende a segurança. Ou como estradas tão más entre províncias resultam num enorme estímulo para as companhias de aviação privadas. Angola está em bruto, como um diamante, mas não sofre de ingenuidade.

De modo que se torna difícil massificar as modas internacionais, enquanto na rua há miúdos a coçar os piolhos, ou democratizar o luxo num universo transversal que habita condomínios de pobreza. Luanda é uma festa de crianças onde poucos têm altura para chegar à caixa das bolachas. É, portanto, o que é. Mas é também o inverso. Sol e alegria, desprendimento, ruído, vida vivida rápido, «ya» e «tásse bem». O ritmo vagaroso é apressado. A sua pressa tem muito tempo. O tempo tem relógios à venda, a bom preço nos zungueiros (vendedores de rua), directamente de um retalhista da R.D. do Congo. Que «take» reservará o futuro?

Se for da moda angolana, ao fundo está um sorriso. Os estilistas de Luanda, em processo de internacionalização, são como uma S.A. que se exporta, importando tecidos para as suas criações. Há tradicionalistas, retro-vanguarda, corte clássico, puristas, tribalistas, neoliberais, esquerda «fashion», os que estudaram Gestão em Lisboa, outros advocacia em Londres, uns que tiveram educação nos EUA, outros ali mesmo. Todos tomaram novo curso neste sector específico do universo amplo da futilidade. E há Shunnoz Tião, transcendência, antigo estudante de Psicologia, autoproclamado inventor da Pensologia, segundo o autor, uma espécie de corrente intelectual, com artes de igreja alternativa. «Não somos nada», diz Tião. «Não somos carne», diz Tião. Tião, contudo, desenha roupas para a carne que as pode comprar, vive da carne onde passeiam os exemplares com a sua assinatura. Com Tekassala, parceiro de ateliê, foram os Estilistas do Ano em Angola. Hoje, para encontrá-los é preciso viajar para as grandes capitais europeias, nas teias da globalização. O mesmo aconteceu com Rucka Santos. A sua loja, UNYKA, vende a exclusividade que o dinheiro pode comprar. Rucka organizou recentemente o espectáculo de Missy Elliot, embaixadora multimilionária do «rap» americano, que veio a Luanda ver como Angola é pobre entre o aeroporto e a sala de espectáculos. «Ela ficou muito impressionada com as mulheres com a fruta à cabeça», diz Rucka.

«O mercado é reduzido, mas abastado», garantem. Tanto vai ao cabeleireiro a Paris, como lhe pode apetecer comprar-lhes uma colecção inteira e deixar o troco. Na «chaise longue» social, essa Luanda é como se fosse a capital do paraíso, pequeníssima, tão real como a outra, imensa e submissa, atada de pés e mãos como um gigante em Liliput. A sobrevoar a cidade num helicóptero particular, em direcção ao iate, na travessia para uma mansão, nem se notam as evidências. Os grandes problemas tornam-se pequenos, minúsculos, ínfimos. E desaparecem, voando para longe na nuvem doce de um Cohiba à brisa da utopia.

Vive em Luanda uma cidade cor-de-rosa, de festas, brindes à saúde dela própria, em pose para a «Caras», por acaso propriedade de Tchizé dos Santos, filha do Presidente. O angolano tem natureza vaidosa, gosta de exibir. A «Caras» dá os «high-lights» de tudo a quem nada tem. Os luxos, as recepções oficiais nos jardins da Cidade Alta, no palácio oficial do Presidente, as galas, as festas no Mussulo, recanto paradisíaco de Luanda Sul, navegando para lá nos seus iates, trajando lantejoulas e «smokings», com vista para uma cidade feroz, nas ruas de outra realidade.

Não seria por isso que Luís «Dufa» Rasgado, destacado empresário de Benguela, com vínculo ao MPLA, deixaria de assinalar o seu 60.º aniversário. A sociedade das aparências - ou das evidências - celebrava mais uma noite. Dizia no convite para se usar indumentária adequada, as melhores jóias, um «je ne sais quoi» de qualquer coisa, fosse o convidado pele de lobo em cordeiro ou exactamente o contrário. Fosse como fosse, ao entrar deixaram para trás uma rua cheia de guardas. E estes deixaram para trás as barracas e os milhões que nelas habitam, que deixaram para trás a província, as origens, longe, em sítios onde hoje só moram os velhos e a incapacidade de voltar. Para trás, musseque e pobreza. Para a frente, acepipes.

Gin-tónico, talvez? Whiskie irlandês com duas pedras de gelo purificado? Uma cervejinha importada a estalar? Salgadinho? O aniversariante, de «smoking» branco, da mesma cor do seu sorriso, estava à porta do Endiama, uma casa colonial de luxo no bairro de Miramar, onde fica a residência não-oficial do Presidente, assim como a «Casa Branca», que foi morada de Jonas Savimbi, líder defunto da UNITA. Abraço, beijo, agradecimentos pela comparência. «O trânsito está um inferno», atirou uma convidada, acertando a traseira do vestido, por onde escapava um pedaço de roupa interior. «Não se pode», devolveu outra, irrepreensível em corte clássico sobre camisa de folhos, penteado de fixação improvável.

Muito difícil o trânsito na cidade. Se chove, pior. Os assaltos também não ajudam. Luanda foi desenhada para 500 mil pessoas. Tem hoje mais de cinco milhões. Nada flui. Só os mil esquemas que a rua oferece. Aliás, vende. Nada é de graça. Tudo se paga. Tudo falta. Tudo se arranja. Só os limitados conhecem como são duros os limites. E guardam isso para eles, como se guardassem um segredo. Os que navegam na zona franca do «cash-flow» saboreiam esta nova Angola que superou o colonialismo português, mas não o arrumou, que saiu de uma longa guerra civil, mas não sarou todas as feridas, que tem abundância de petróleo e diamantes e transborda pobreza a cada rua. E transborda riqueza, como certa roupa interior num vestido apertado.

É a Angola dos descendentes da ascendência, ínfima minoria. Alto negócio, carro de luxo, charuto, helicóptero, iate e champanhe, apartamento na cidade e casa no campo, da política de relacionamentos, do apetite sôfrego das economias internacionais. Crescem em Luanda prédios moderníssimos, esguios por questões de propriedade privada e valor de metro quadrado numa das cidades mais caras do mundo. Mas os passeios e as estradas em redor são feitos de buracos públicos. As chinelas havaianas que nelas passeiam - baptizadas «facilitas» -, tornaram-se mito, calçaram todos os pés, foram augúrio de modernidade. Mas os pés continuam sujos. E nada podem, caso se cruzem na rua com os pneus de um jipe topo de gama. O trânsito estava um inferno? Provável.

Os convidados integravam-se, escorriam pela cerimónia, mais descontraídos, segurando copos, descrevendo círculos. Uma bola gigante multimédia assinalava o evento: «Parabéns Dufa». Perto das mesas alongava-se um «buffet». Carnes, peixes, mariscos, frios, quentes, dentro de enormes caixas de cobre com tampa deslizante, para manter à temperatura exacta a comida. O vinho tinto devia estar a 16 graus. Para o Moët & Chandon, que começava a jorrar, o calor era inimigo da perfeição. Lá fora, dentro da enorme panela ao lume chamada Luanda, nas barracas onde não existe frigorífico e os escassos alimentos se conservam em sal, a Cuca, cerveja local, também sofre aquecimento prematuro. Tantas coisas dividem esse mundo deste, só mesmo imponderáveis os podiam unir num problema comum, sublinhando a diferença que os separa: uns incomodam-se porque não conseguem ter tudo. Outros sofrem porque só conseguem ter nada.

Na pista, meninas com traje de princesinhas rodopiavam alegremente. Por trás do palco, um desfile de doces e uma colecção de frutos. Ao lado, outra de frutos secos. Um conviva mais animado, que sabia do que falava em matéria de fruta seca, pegou num exemplar e declarou: «Este é bom para a virilidade», olhar malandro. «É... hermafrodita». Adiante. Repasto, sobremesa, mais brindes, discursos, mais champanhe, digestivos, mais champanhe e mais champanhe, champanhe para o momento da noite: Dufa dirigiu-se ao centro da pista, para soprar as velas. Seguiram-se horas de baile, comida, bebida, alegria.

Só a chuva deteve a festa, já de madrugada. De madrugada, o trânsito já não é um inferno. O inferno dorme a essa hora. Mas a chuva vai acordá-lo em sobressalto, despertando a Angola que não vai à «vernissage» e ao beberete, não tem preocupações com os «down jones» e o preço do barril de crude, não bebe conhaque em balão aquecido, não tem um todo-o-terreno Porsche e conta «off-shore», nem é servida em bandejas de prata. Essa Luanda, desenraizada, agoniza em contrastes. E sorri. E, sorrindo, é a Angola perdedora, neste jogo de subserviências. Tem a Babilónia debaixo dos pés, mas não encontra o caminho no meio do lixo e das barracas, a tropeçar no vácuo, a cair em nada. Se escavar um pouco do seu solo, é provável que encontre petróleo ou diamantes. A escavar no seu musseque, só encontra musseque.

 Reportagem de Luís Pedro Cabral (texto)
e Sandra Rocha/Kameraphoto (fotografias), em Luanda

 

(*)(Nota pessoal: Mas podia muito bem ser a edição de hoje...)

 


Está a chegar a Luanda o mais recente brinquedo do Presidente José Eduardo dos Santos: um iate de luxo, seguramente comprado com o seu salário, que ronda os 4000 euros, e cuja tripulação é recrutada em Portugal, com vistos passados em 24 horas. E, enquanto o Presidente se prepara para navegar nas tépidas águas do Mussulo, a sua filha, a elegantíssima empresária Isabel dos Santos, não pára de aumentar a sua fortuna nascida do nada. Com a anunciada compra esta semana de parte do capital da Zon, Isabel dos Santos tem já investidos dois mil milhões de euros em empresas portuguesas. É um excelente negócio para estas empresas, que não apenas recebem capitais frescos como também recebem de braços abertos um parceiro estratégico que lhes garante participação nos melhores e mais favorecidos negócios angolanos. Pena que não reservem uma pequena parte dos lucros para financiar próteses para as crianças vítimas da guerra civil angolana, para construir habitação social para os milhões de favelados de Luanda ou para criar esgotos e infra-estruturas básicas que dêem à imensa maioria da população miserável condições mínimas de dignidade. Porque, até prova em contrário, a riqueza de Angola pertence a todo o seu povo e não apenas aos que se passeiam em iates de luxo e vêm a Lisboa comprar roupas de marca, jóias ou empresas de telecomunicações. Nunca tão poucos tiraram tanto a tantos.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009


O meu comentário

Lá como cá, o Povo está sempre em último lugar. E como o "bandulho" desta espécie de biltres (em que se incluem espécimes como Sócrates, Berlusconi, Durão Barroso, Gordon Brown e outros) é mais volumoso que a albufeira do Alqueva, a sensação de saciedade demora tempo demais a chegar - às vezes o tempo de uma vida que se esfuma na espera demasiado longa... 

publicado às 18:48

A IDADE DA INOCÊNCIA DO CPC...

Gestores públicos

Conselho Permanente optimista no cumprimento da entrega dos planos de prevenção da corrupção

30.12.2009 - 11:32 Por Lusa

Na véspera de terminar o prazo para a entrega dos Planos de Prevenção de Riscos de Corrupção de todos níveis da Administração Pública, que acaba na quinta-feira, dia 31 de Dezembro, o Conselho Permanente da Corrupção (CPC) manifesta-se optimista.

(...)


E nós também acreditamos - tal como o Padre Américo acreditava - que "não há rapazes maus", que Sócrates é apenas um "menino problemático" a viver uma crise de afirmação, que Armando Vara está a ser vítima de uma "cabala" que o caso BPN não foi um caso de Polícia, que as Leis anticorrupção, do enriquecimento ilícito, do levantamento do sigilo bancário, etc., mereceram sempre por parte do governo e do PS todo o acolhimento e só enfrentaram (e enfrentam) os problemas que todos sabemos por culpa exclusiva da oposição Parlamentar...

Pessoalmente e descendo ao nível das Autarquias Locais, eu também acredito que a Câmara Municipal de Valongo e o Dr. Fernando Melo, vão deixar de ocupar o lugar cimeiro do "pódio" dos "ajustes directos" e que a especulação imobiliária à volta das excepções ao PDM vai finalmente acabar em Alfena, onde o Gabinete de Arquitectura mais "dinâmico" e melhor especializado na "arte de bem corromper" por estas bandas, vai deixar de ser conhecido apenas pelos piores motivos...

E acredito nas viagens intergalácticas do "Pai Natal" para satisfazer os pedidos das criancinhas e que as cegonhas que (ainda) conseguimos avistar de vez em quando nos campos do Alentejo, estão apenas a repousar das viagens de ida e volta a França para trazer os bebés que vamos tendo cada vez menos - na exacta proporção das ditas, também elas cada vez mais raras...

Tão ternurenta e comovedora esta ingenuidade do CPC... Porque será que mais de metade do País não é como o saudoso Padre Américo?

(Será que se ele vivesse nos tempos conturbados que nós vivemos continuaria a achar que "não há rapazes maus" - sobretudo na política?)

 

 

 

publicado às 14:50

ALEA JACTA EST...

Estralejaram foguetes (apesar da crise)...

Saltaram rolhas das garrafas, encheram-se as taças - ou os copos de plástico descartáveis dependendo do contexto -  com o champanhe genuíno ou a fingir, conforme o volume das respectivas carteiras (apesar da crise)...

Com maior ou menor convicção, formularam-se os melhores votos para os próximos 365 dias, enquanto se trocavam abraços e beijos como é habitual fazer-se nestas circunstâncias (apesar da crise)...

Porque essa (a crise)  como também costuma acontecer nestes momentos festivos, num fugaz gesto de encenada magnanimidade, deu um pequeno passo atrás, concedendo a primazia ao brilho das luzes e dos trajes de gala (comprados, alugados ou emprestados). Por breves minutos, talvez até umas escassas horas, ou com um pouco de sorte até ao nascer do dia...

Inevitavelmente porém, com o aproximar dos primeiros alvores da manhã, o peso do cansaço, as sequelas de uma ingestão quiçá exagerada de alguns líquidos não habituais, em suma a tremenda da "ressaca" para sermos mais explícitos, vai fazer-nos cair "na real" - como dizem os nossos irmãos brasileiros...

Nessa altura (nesta altura) estaremos (estamos já) em 2010! E ganha um doce quem encontrar uma diferença que seja em relação ao seu antecessor!

(Mas também estamos ainda no início)

De qualquer forma, "A SORTE ESTÁ LANÇADA"...

publicado às 01:05

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