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A TERRA COMO LIMITE...

UM ESPAÇO ONDE ESCREVEREI SOBRE TUDO, SOBRETUDO, SOBRE TUDO QUE SEJA CAPAZ DE CAPTAR A MINHA ATENÇÃO. UM ESPAÇO ONDE O LIMITE NÃO LIMITA - APENAS DELIMITA.

A TERRA COMO LIMITE...

UM ESPAÇO ONDE ESCREVEREI SOBRE TUDO, SOBRETUDO, SOBRE TUDO QUE SEJA CAPAZ DE CAPTAR A MINHA ATENÇÃO. UM ESPAÇO ONDE O LIMITE NÃO LIMITA - APENAS DELIMITA.

A PROPÓSITO DE “prémios” PARA OS PROFISSIONAIS DO NOSSO SNS...

Captura de ecrã 2020-10-26, às 23.13.47.png

 

(Ou como o incómodo de uma longa espera 'com a barriga a dar horas' e o relativo desconforto de uma cadeira pouco amigável, numa sala de espera do Hospital S. João, puderam ser compensados por uma dose generosa de humanidade)...

 

Os nossos profissionais do SNS, pela sua dedicação, pela ancestral capacidade que os portugueses têm de ‘fazerem das tripas coração’, conseguem sempre e para bem de todos nós, colocar em ‘stand by’ a humana revolta que todos os dias os invade pela recorrente escassez de meios e pela sistemática falta de tudo aquilo que por mais básico que possa parecer, se torna imprescindível  para o seu trabalho quotidiano.

 

Ainda assim, mesmo com poucos ovos, a evidente escassez de braços para os bater e tantas bocas para alimentar, a sua imensa capacidade de superação temperada por generosas doses de profissionalismo de que nenhum governante jamais os conseguirá compensar e menos ainda retribuir, conseguem fazer boas ‘omeletes’ e servi-las aos pacientes que lhes chegam às mãos todos os dias.

 

(Sei do que falo - porque me movimento no meio - e sabendo-o, há muitos anos que assisto aos anos que passam sobre o muito que não se tem feito e se continuará a não fazer - pelo menos enquanto o Povo não tomar nas mãos as armas com que se fazem as coisas certas).

 

Assistentes operacionais, enfermeiros, médicos, no Hospital S. João mas não só, conseguem sempre e apesar de tudo receber-nos com 'aquele sorriso número 1’  - como se cada um dos muitos que todos os dias os procuram fosse a pessoa mais importante desse dia, como se fosse A PESSOA...

 

É claro que todos sabemos que o estado deprimente desta, daquela ou aqueloutra sala de espera só está e continuar a permanecer assim porque milhões têm sido roubados, subtraídos, desviados pelos do costume ou para atender às prioridades invertidas de uns quantos também conhecidos.

 

Depois seria inevitável que o exame marcado para as 12 horas no serviço de Hematologia do Hospital S. João só  pudesse ocorrer por volta das 14:30 e mesmo assim graças à solidariedade do Dr. Pedro que “ia agora mesmo almoçar qualquer coisa mas como a sua consulta ainda é do período da manhã, vou vê-lo primeiro...” – e aquele sorriso como que a dizer “dividimos a fome e assim custa menos a cada um de nós, não é assim?”.

 

Claro que é, Dr. Pedro, porque o Serviço de Hematologia do Hospital de S. João é excelente e porque a sua escassez material é compensada com o verdadeiro excesso de profissionalismo e humanidade com que nos recebe.

 

(Foi assim hoje, neste Hospital com H Grande, onde as omeletes se fazem com poucos ovos mas mesmo assim se fazem, no Hospital de S. João - O HOSPITAL.

 

Nos últimos dias tive oportunidade de ver com mais detalhe como é que, num Hospital que no seu dia a dia fervilha como uma pequena cidade, é possível continuarmos a sentir-nos pessoas e a podermos ser acompanhados em relação a problemas aparentemente 'incompatíveis' com as prioridades do contexto COVID que tudo tende a desvalorizar.

 

(Por vezes existem 'pequenos' problemas cujo despiste não pode ser adiado, doenças raras que necessitam de ser diagnosticadas, eventualmente tratadas e necessariamente acompanhadas e existe também uma certa polineuropatia desmielinizante inflamatória crónica’ que não sendo nenhuma 'sentença de morte' pôde mesmo assim ser diagnosticada e ver iniciado o seu tratamento futuro - para que a imensa perda de mobilidade e qualidade de vida a que a ausência de acompanhamento inevitavelmente conduziria. E tudo está a ser feito ao mais ínfimo detalhe e de acordo com os mais rigorosos parâmetros de acordo com o actual estado da arte - e tudo isto sem descurar tudo o resto...

 

E ainda foi possível constatar a atenção e o carinho contido naquela repetida interrogação do assistente operacional (ou voluntário?)  que ia passando com o carrinho de tabuleiros pelas várias salas de espera – “alguém quer uma sopinha?” - como quem sente vergonha alheia pela demora e pelo desconforto do almoço falhado daqueles muitos...

 

(Porque o director do hospital, o administrador, o director clínico, até podem ter ido almoçar mais ou menos a horas, mas não se esqueceram dos seus pacientes e do aconchego do conteúdo daquele pequeno tabuleiro: a tigelinha de sopa passada, um pão e a taça de maçã assada. Declinei a oferta –  afinal o Dr. Pedro devia estar prestes a chamar-me para 'aquela punção óssea destinada a recolher material para uma biópsia de despiste’ - mas foi como se tivesse saboreado à mesma o modesto manjar servido ao único que disse 'sim', de entre a meia dúzia de companheiros de sala com o almoço igualmente atrasado ou adiado)...

 

E no meio das muitas dúvidas que sempre nos assaltam no silêncio de uma qualquer sala de espera de um qualquer hospital onde por vezes se cruzam múltiplas e variadas situações, dei por mim a dizer muito baixinho, para que o meu pensamento não pudesse ser escutado pela minha companheira de meia vida já vivida e que hoje, como aliás sempre, não prescindiu da minha companhia (a recíproca também é verdadeira...) - “como é insignificante, apesar de imenso à escala pessoal, o meu problema, quando comparado com o daquela senhora que aguarda a consulta de quimioterapia, confinada à sua cadeira de rodas e à ajuda do seu marido que aparenta dificuldades muito próximas das dela”...

E quão ‘injusto’ considero que o profissionalismo temperado de carinho q.b. que me foi dispensado pelo assistente, o enfermeiro, o médico – extensão feminina implícita – tenha sido idêntico àquele com que dispensaram ao tal casal idoso da quimioterapia – porque o sofrimento deles era visível e imensamente superior ao meu.

 

Mas é bom, muito bom mesmo,  este 'problema' de termos os mínimos da qualidade humana dos nossos profissionais do SNS bem acima dos outros mínimos relativos à qualidade das instalações – porque o que se gasta para engordar os ‘novos bancos’, as ‘tap’, as ‘ppp’ deste País e tudo o resto que não me ocorre enumerar, inevitavelmente continuará a escassear para atender a 'ninharias' relacionadas com situações de conforto ou bem estar dos portugueses que ficam doentes. Tenho esperança que um dia, que espero não tarde muito, possamos todos contar com uma qualidade de instalações equivalente à dos privados, que eu também conheço, mas que apesar disso ficam a léguas do nosso Serviço Público...

_____________

PS: teve piada aquela expressão do Dr. Pedro "você tem uns ossos duros de roer" - isto já depois do trabalho de mandril a raspar ums lascas para a tal biópsia. É bem capaz de ser verdade e quiçá todo eu seja de facto 'um osso duro de roer' - no desabafo verdadeiro mas nunca confessado de alguns 'inimigos de estimação...

publicado às 18:55

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