Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A TERRA COMO LIMITE...

UM ESPAÇO ONDE ESCREVEREI SOBRE TUDO, SOBRETUDO, SOBRE TUDO QUE SEJA CAPAZ DE CAPTAR A MINHA ATENÇÃO. UM ESPAÇO ONDE O LIMITE NÃO LIMITA - APENAS DELIMITA.

A TERRA COMO LIMITE...

UM ESPAÇO ONDE ESCREVEREI SOBRE TUDO, SOBRETUDO, SOBRE TUDO QUE SEJA CAPAZ DE CAPTAR A MINHA ATENÇÃO. UM ESPAÇO ONDE O LIMITE NÃO LIMITA - APENAS DELIMITA.

O PCP E A ARTE DE DAR ‘TIROS NOS PÉS’ – A OPINIÃO DE UM EX-MILITANTE COMUNISTA (QUE NÃO ME ENVERGONHO DE TER SIDO)...

Captura de ecrã 2022-05-12, às 22.59.22.png

A Grande Revolução Russa de 1917 deu-se num contexto histórico de profunda decadência da monarquia russa (czarismo) e a relevância e a expansão do movimento comunista internacional ocorrida logo a seguir, encontrou portanto terreno fértil para se desenvolver .

De facto, logo a seguir à primeira Grande Guerra, a Rússia tinha caminhado para uma grande industrialização e, ao mesmo tempo, um grande desenvolvimento da agricultura graças à introdução de novos meios e novos factores de produção. Daí que as bases da grande força centrífuga do Movimento Comunista Internacional a partir da Rússia tenham assentado durante muito tempo num slogan identitário e agregador: “Proletários (operários e camponeses) de todo o mundo uni-vos!” - Manifesto Comunista

(https://pt.wikipedia.org/wiki/Proletários_de_todos_os_pa%C3%ADses,_uni-vos!).

Para abreviar, e evitar longas dissertações históricas que não vêm ao caso, foi assim que Lenin, que não era nem operário nem camponês alavancou a sua luta inicial, de forma genuína, ao lado do Povo e por isso mesmo, enfrentando oposições internas fortes dos intelectuais de cujo meio ele próprio emergia.

Lenin era, ao contrário do que veio a acontecer com os líderes dos vários partidos comunistas que emergiram em todo o mundo – e também na URSS – um ‘proletário intelectual’ (se é que esta designação pode ser usada) mas NUNCA um burocrata – aquilo em que se transformaram muitos outros dirigentes partidários.

Portanto, não espanta o crescente descrédito do ‘movimento’ no seio das suas bases (proletários) o que levou a que, muitos anos mais tarde, a ‘pátria’ do socialismo (comunismo) na configuração desse tempo (URSS) tivesse que investir muitos meios na formação de novos quadros (burocratas) preparados de forma intensiva e em ‘fornadas' sucessivas (na Escola Superior de Marxismo-Leninismo em Moscovo) para disseminar a ‘ideia’ um pouco por todo o mundo.

Em 1976 eu era um operário filiado no PCP após o 25 de Abril, portanto, ávido do conhecimento que muito já tinham sobre o movimento e ferramentas (ideologia) para ajudar a expandi-lo. Aceitei por isso com entusiasmo os 7 meses que me propuseram para essa formação a ter lugar em Moscovo.

Integrei um grupo de cerca de dezena e meia de camaradas e por lá nos cruzamos com grupos de igual dimensão, militantes de dezenas de partidos irmãos – Grécia, Turquia, Brasil, Cuba, França, etc., etc.

Mas esse enorme investimento do PCUS (Partido Comunista da União Soviética na terminologia ocidental) tinha riscos:

- Os formandos circulavam livremente entre a população e contactavam com a mesma livremente  – impedir esse contacto de alguma forma pareceria estranho...

- Desse contacto resultava (inevitavelmente) o conhecimento de uma realidade sobre a vida do povo soviético nada  simpática – dificuldades no acesso à habitação (havia apartamentos equiparados aos nossos T2/3 que tinha de ser partilhados por 2 ou 3 famílias diferentes e sem qualquer ligação entre elas);

- Havia dificuldades no abastecimento de bens de consumo e alimentos, formando-se habitualmente grandes filas para o acessos a mercados, superfícies comerciais, padarias, etc.;

- Os estrangeiros protegidos do partido podiam, ao contrário da população, pagar em divisas, sobretudo US Dólares, e tinham mesmo à disposição uma espécie de ‘lojas francas’ onde podiam encontrar bens e produtos que não existiam no mercado normal (as famosas ‘Beriozkas’) -  https://www.nytimes.com/1983/07/03/travel/shopper-s-world-capitalist-s-guide-to-beriozkas.html);

- Grupos como aquele que eu integrei tinham privilégios inaceitáveis em relação à população: para conseguir um  acesso a um espectáculo da programação normal da famosa Companhia do Teatro Bolshoi  por exemplo, a população tinha de enfrentar uma lista de espera superior quase sempre a 1 mês e depois de obtido o ingresso, tinha de enfrentar as longas filas de acesso ao referido espectáculo. Pois bem, eu fui, que me lembre a dois espectáculos da Companhia (um deles ‘O Lago dos Cisnes’), não paguei qualquer ingresso e como o grupo era sempre acompanhado – nas deslocações organizadas – por um tradutor, passávamos, sempre, à frente de todas as filas.

(Excepção para uma visita à famosa torre de Televisão de Moscovo (Ostankino), onde fomos literalmente barrados à porta do elevador por uma corajosa septuagenária de ‘pêlo na venta’ e discurso adequado à sua revolta e que não abdicou do seu direito de precedência na entrada. É claro que quando chegamos todos lá acima, ela foi puxada para o lado por um ‘daqueles senhores’ de fato, gravata e sapato reluzente para uma ‘conversa adequada’...).;

- Uma outra situação que registamos e começou a contribuir para um lento e paulatino esmorecimento do nosso fervor revolucionário era a forma como se confundiam os patamares de decisão do governo do Estado e do Partido;

- Todos os membros dos grupos, mal chegavam à URSS adoptavam uma nova identidade à escolha de cada um e recebiam um novo ‘cartão de cidadão’ condizente com a mesma e comprometiam-se a salvaguardar a mesma na sua eventual correspondência com a família e amigos;

- Num País onde um trabalhador especializado ganhava na altura um salário médio de 80 Rublos (Excepção dos mineiros e outras profissões de especial dureza ou penosidade que ganhavam um pouco mais) – embora existisse uma pequena parcela de ‘salário indirecto na subsidiação da habitação e do acesso ao ensino, por exemplo – os grupos de formação estrangeiros, como o nosso, auferiam de uma ‘bolsa’ de 250 rublos. A título de exemplo e porque ele se tinha tornado num bom amigo com quem podíamos falar de tudo sem receio de delação, o Yuri, o nosso tradutor, licenciado, fluente em quatro línguas estrangeiras, casado e com dois filhos, ganhava menos de metade desse valor;

- Tínhamos direito a alojamento em instalações da própria escola (em quarto duplo) e condições especiais de pagamento das nossas refeições no restaurante também da escola;

- Eram privilégios indesculpáveis e duvido que fossem conhecidos do cidadão comum;

- Não admira portanto que, acabada a formação, muitos de nós estivéssemos já com a ‘moral revolucionária’ extremamente debilitada. Mesmo assim, ainda tivemos de aceitar sermos portadores de um envelope com 500 US Dólares em dinheiro para entregarmos ao Partido à chegada a Lisboa;

- Apesar de tudo e em abono do antigo regime (URSS) a sua expansão fazia-se mais através do combate ideológico levado a cabo por mensageiros (como nós) nos respectivos países, com vistas á implantação de ‘regimes amigos’ do que pela ameaça concreta do uso das armas – embora elas estivessem sempre 'à vista’ e alegadamente prontas a serem usadas, o que, convenhamos, é substancialmente diferente de usadas de facto.

- Ao contrário, o sistema híbrido-capitalista que resultou do fracasso do projecto protagonizado por Gorbatchev, (a actual Federação Russa onde agora impera o ditador Putin) é muito mais imprevisível e a sua preferência pelo recurso à guerra (a Ucrânia é o último exemplo) está sempre à frente de qualquer negociação e muito menos, do recurso à ‘catequização’ ideológica – até porque regimes como o da Rússia e ditadores como Putin não têm ‘catecismo’ nem nenhum suporte ideológico.

Breves notas finais:

  • Sobre a actual ‘vinculação híbrido-dependente’ do nosso PCP ao actual formato do regime existente na Rússia, seria interessante saber como é que, ao nível interno por exemplo - porque os mensageiros têm de ser convencidos da bondade da mensagem - eles apresentam Vladimir Putin: como o camarada vizinho do camarada Lenin, que habita o Mausoléu privativo ali ao lado na Praça Vermelha?
  • E sobre a formação teórica: será que ainda folheiam as Obras escolhidas de Marx/Engels/Lenin e filósofos como Afanasyev, entre outros?
  • Será que alguns ainda recordam (se é que alguma vez leram) o Manifesto Comunista?
  • Será que, ao contrário dos velhos comunistas – eu ainda fui a tempo de integrar essa classificação – os actuais camaradas têm (ainda) alguma ‘Meca’ onde possam renovar de vez em quando o seu fervor revolucionário? – República Popular da China, República Popular Democrática da Coreia do Norte, República Bolivariana da Venezuela, República de Cuba?...
  • É que, desaparecida a, para os padrões do PCP, principal referência – a ‘pátria do socialismo’ (URSS) – não tivemos notícia de qualquer redireccionamento do ‘GPS’ dos camaradas vinculados e simpatizantes para outro(s) relevante(s) ponto(s) de referência...
  • Podíamos até não concordar totalmente com o velho projecto de sociedade que nos era proposto por Marx e Engels, depois adaptado por Lenin à nova (da altura) realidade do mundo, mas pelo menos, tínhamos algo sobre que elaborar, reflectir, concordar e mesmo discordar, dando entretanto algum uso às ideias e aos neurónios que tínhamos activos. Porém desaparecido (ou caído em desuso) o substrato disponibilizado por esses pensadores ilustres, o que é que resta para a formação teórica dos actuais camaradas? A cotação em bolsa das acções da Gazprom, o número, características e poder letal das armas de destruição maciça das Repúblicas populares (socialistas) atrás referidas – incluindo a Federação Russa? O número de nazis existentes na Ucrânia ou o número de estropiados sitiados na siderurgia da Azovstal que resta aniquilar para que o camarada Putin possa (finalmente) declarar conquistadas as ruínas do que foi a bela Cidade de Mariupol?

12-05-2022

 

 

 

 

 

 

publicado às 11:10

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2007
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2006
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D